"Pipoco", parceria de Ana Castela, MC Melody e DJ Chris no Beat, chegou nesta terça-feira (19) ao primeiro lugar diário da parada brasileira do Spotify, principal plataforma de streaming do mundo. Os três artistas nunca tinham chegado ao topo deste ranking.

A música marca a chegada de uma nova comitiva que desbrava as paradas do Brasil, de chapéu e bota, com um pé no passado do sertanejo do "modão" de raiz e outro no presente do funk, rap e eletrônica.

As letras parecem propaganda do agronegócio é o som é um sertanejo que expande fronteiras agrícolas e musicais. O modão virou modinha.

Aos 18 anos, a "boiadeira" Ana Castela é a ponteira dessa geração. "Pipoco" foi composta pelo DJ Chris no Beat a partir de uma base eletrônica, prática pouco comum no sertanejo. Para amarrar essa aproximação com o funk, eles chamaram para participar a paulistana Melody, de 15 anos.


'Pipoco" rendeu memes sobre a dicção confusa de MC Melody, cantora convidada da faixa. Mas a dona da boiada é Ana Castela, ícone dos fãs novinhos que dançam de chapéu e bota no TikTok.

Ana Flávia Castela nasceu em Amambai (MS) e foi criada na vizinha Sete Quedas, na fronteira com o Paraguai. Os avós tinham uma fazenda no lado paraguaio. Ela cresceu entre os dois países, aprendeu a cantar em um coral de igreja e começou a postar covers de músicas pop no YouTube.

Ana foi levada para o escritório Agroplay pelo compositor e empresário Rodolfo Alessi, amigo da mãe dela. O primeiro tiro já foi no alvo. "Boiadeira" saiu em fevereiro de 2021.


Ainda de aparelho nos dentes e espinhas no rosto, Ana cantava sobre uma menina que trocou a cidade pelo interior: "A maquiagem dela agora é poeira".

"Boiadeira" virou a alcunha da cantora de 18 anos. A faixa ganhou um remix do DJ paulistano Lucas Beat, que mistura funk e house. Com "Nois é da roça bebê" e a levemente eletrônica "Neon", Ana virou ícone dos fãs novinhos que dançam de chapéu e bota no TikTok.

Ela virou ponteira da comitiva do "agro" com a explosão country-funk-EDM de "Pipoco", com DJ Chris no Beat e MC Melody. Ana chegou a entrar na faculdade de Odontologia, mas largou. Agora, jogar PlayStation é a única coisa que consegue fazer entre turnês e gravações.


O remix de "Boiadeira" feito por Lucas Beat mostrou o potencial do agro eletrônico. Mas quem abraçou essa mistura foi um DJ de mesmo sobrenome artístico: Chris no Beat. Christian Valezi, 31 anos, de Londrina, era produtor musical de duplas como Pedro Paulo e Alex.

Na pandemia, o trabalho diminuiu e ele virou videomaker. Acabou indo filmar os primeiros clipes de Ana Castela, conheceu Lucas Beat e viu o potencial do estilo. A primeira faixa como DJ foi "Saudade de aglomeração", com Pedro Paulo & Alex, Bruno & Barreto, Léo & Raphael e Loubet.

No fim de 2021 ele lançou o batidão "Pira nos caipira", com Luan Pereira. "Deu muito bom no TikTok", descreve. Ele viu que a "molecada mais nova" queria "uma mistura modernizada para escutar no carro ou numa festa". Já pela Agroplay, lançou um DVD com sucessos como "Juliet e Chapelão".

"Se você pegar os tops do streaming, vai ter um funk, um rap, uma música eletrônica", descreve Chris no Beat. Seu modão modernizado, portanto, é uma forma de entrar na "competição com as outras músicas no mercado".


A produção de "Pipoco" subverteu a prática sertaneja. "Eu já tinha feito a batida, e chamei a Ana e o pessoal ali para escrever em cima dessa base", ele conta.

A composição em torno do beat é o jeito mais comum de se criar música pop eletrônica em vários lugares do mundo - mas não em Londrina. "Agora vamos fazer outras assim", adianta Chris.

Ele diz que a referência são produtores dos EUA. Se as letras tentam separar o boiadeiro do playboy da capital, o som nunca foi tão próximo.


Fonte: G1